...então eu lhe acariciei em silêncio e vi seu corpo estremecer. Ele me disse que viu a própria alma ausentar-se do corpo para dizer-lhe coisas estranhas. Estranheza para a mente dele é saber que meu calor vem recheado de frases que engulo a seco, permeadas de assombro do silêncio dele. Tem no meu olhar a ternura de quem vê um homem desnudo e vulnerável, na mais desprotegida das formas entre meus braços de amante e meus seios de mulher de alma. Tudo o que eu faço tem a ressonância dos versos dele, minha canção é a musica da alma dele, meu gesto tem o traço dos encantos dele, meu vazio tem o som da fala dele. Era tremor, susto, espasmo... eclodindo numa energia demasiada forte para que um de nós estivesse ali. Tudo me parecia exacerbadamente verossímil , ele hesitando em dizer que não me contaria, eu astuciosa na curiosidade feminina implorando para que as palavras elucidassem algo... Mas ao ouvir o esperado desfecho um ceticismo mórbido ocorreu-me instantaneamente, a descrença numa desgraça ainda maior na própria vida, além do desamor já não me abala mais. É isto que justifica todas as catástrofes, o mundo contemporâneo se perdeu em seu próprio vazio e já não somos mais capazes de humanizar uns aos outros. Se há alguém acima de nós está se divertindo muito com as nossas pequenas desgraças para querer findá-las numa ação apocalíptica. Ainda não concluí metade dos meus propósitos, ainda não perdi um ente muito querido, ainda não quebrei uma parte do corpo, ainda não usei as drogas que queria , ainda não vivemos a completude do amor ... e é por isso que eu digo a ele: eu acredito em tudo o que me disse, mas não, o mundo não há de se acabar...
16/09/2008
02/09/2008
Cuidado: Piso molhado.
Parece que tem sempre um sinal alertando agente para não cair, tem sempre uma placa, um tapete, um triângulo, alguma coisa. Estamos simplesmente tentando seguir adiante, parece tão simples, mas temos obrigatoriamente que atravessar pro outro lado. Estamos tentando, e me questiono se é mesmo isso, se diante da placa os nossos olhos são capazes de mirar o chão afim de verificar a veracidade da mesma ou o esquecimento de algum funcionário. Me questiono quantas vezes desviamos do caminho simplesmente porque havia uma placa, embora as peripécias dos trópicos nos concedessem pisos secos em poucos minutos e nos garantissem trânsito seguro rumo ao nosso destino final. Porque é necessário vislumbrar além, é necessária a visão panorâmica, posto que somos tão racionais. É necessário assumir os riscos das nossas escolhas, ainda que cair signifique aprender a levantar. Sem os riscos perdemos tempo em vão, talvez alcancemos o mesmo destino, mas a obviedade do conforto pode nos privar da aventura da transgressão. É necessário transgredir, descumprir normas, protocolos, ignorar as placas afim de ver o que acontece. É dessa sensação que se nutriram os gênios, da não observância do ponto em foco no todo. É necessário ousar, afinal o que seria de nós sem as chineladas pelos banhos de chuva? E também das fábricas de aspirina... O que seriam das nossas lembranças sem um porre na adolescência ? E dos ombros sinceros dos melhores amigos...O que seriam dos bons amantes sem um carinho inesperado na via pública? E do silêncio na vizinhança... É necessário cair, estar vivo é sentir dor e se não tem gelol que cure agente corre pro analista, mas sem a queixa de ter estado atônito, débil e mediocremente parado diante da placa. 05/08/2008
Geração Nissin Miojo...
Andy Warhol - Tomato SoupHoje os dias são repletos de "mimesis", tudo é imitação. Ás vezes o falso que cabe no bolso é preferível ao que vem com nota fiscal, se der errado não reclame, mas se funcionar vem aquela sensação de esperteza. Tudo é uma questão de saciar a fome do momento, aliviá-la sem nutrir-se ainda que o corpo esteja fraco. Há sempre um tempero pronto, que não deixa cheiro nas mãos embora satisfaça mediocremente o paladar. Nossos sentimentos podem ser achados em prateleiras de supermercado, também estão em pacotes lindos que ficam prontos em poucos minutos e tudo o que precisamos é de um balde de água fervendo. Assim prosseguimos enganando o espírito, mais que ao estômago e ao coração. Vivemos ilusões passageiras sem pretensões de alimentar a alma. Nos dias frios tem chá quente e cobertor, nos dias quentes roupa curta e carinho na mão. Tudo de segunda linha, chá, cobertor, vestimenta, carinho... Originalidade custa caro e demora muito pra pagar, ainda que se tenha condições. Alimentamo-nos de ilusões, mostramos nosso sorriso amarelo, partilhamos o endereço na net e vamos seguindo, uma vida cremosa, tradicional ou light. O que não nos faltam são novas versões sempre dentro da velha embalagem.
A Casa
Mark Ryden - The Ecstacy of Cecelia Sempre vejo o ser humano como uma casa;
alguns são proprietários, outros apenas inquilinos...
Existem casas que são grandes e espaçosas, mas não são aconchegantes,
há outras que são muito pequenas, mas tudo tem o seu canto e no final vive-se feliz.
A minha casa é média, nem tão alta como uma mansão, nem tão espaçosa, nem tão apertada... Como na maioria das casas tem o “cantinho da bagunça” que estou sempre tentando arrumar.
Depressão é quando a bagunça toma conta da casa inteira, quando não sei onde acaba o mundo que me sufoca e começa aquilo que realmente sou.
Alegria é quando está tudo em ordem, mesmo tendo alguma baguncinha e então pode-se abrir a porta para que alguém venha e habite comigo, transformando a casa num lar.
Felicidade é quando eu percebo que mesmo com todas as tempestades os alicerces continuam em pé.
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